DEBATE ACERCA DO MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TERRA (MST). Parte 1. Análise crítica.

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DEBATE ACERCA DO MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TERRA (MST). Parte 1. Análise crítica.

Mensagem por Saul Oliveira em Sex Fev 17, 2017 11:12 pm

Prezados, iniciarei o debate apontando algumas falhas que vejo no MST, algumas considerações críticas acerca do movimento. Em seguida irei postar os pontos positivos que acho do movimento e por final minha conclusão.

1- História e aspectos do movimento.

O MST nasceu na década de 80 com o processo de redemocratização do Brasil após 21 anos de ditadura. De um modo geral, o movimento foi uma resposta cristalizada em um movimento de massas a séculos de latifúndio e as condições precárias de vida dos pequenos agricultores. Vale salientar, que O MST não iniciou a luta pela terra no Brasil, mas herdou uma longa experiências histórica de lutas, das quais podemos citar: Canudos, Contestado, Porecatu, Trombas e formoso, Caldeirão de Santa Cruz, Ligas camponesas, além das experiências de partidos e instituições eclesiásticas nessa luta. João pedro Stédile um dos fundadores dos movimentos na época que fazia pós graduação no México, teve um encontro com Francisco Julião, que foi o líder das antigas ligas camponesas, e nesse encontro Stédile pergunta a Julião o que deu certo e o que deu errado em seu movimento. Julião assinala 3 erros: I- Falta de formação política e intelectual dos quadros, II- Infiltração e muito vazamento no movimento, III- autonomia das ligas em relação a organização de suas ações em relação aos partidos. O engraçado, que a terceira ressalva que Julião faz em relação ao fracasso, é justamente o que está deteriorando o MST nos dias de hoje.

A primeira ocupação do movimento foi realizada na fazenda Annoni, um latifúndio improdutivo no Rio Grande do Sul. De lá para cá, o movimento realiza ocupações de propriedades improdutivas, em terras griladas (CUTRALE), ocupam BRs e espaços públicos (Prédios do INCRA), e até espaços privados que estejam desenvolvendo trabalhos com plantas transgênicas que não estão de acordo com as normas do CNTBIO e do meio ambiente (Caso da ARACRUZ). Até a década de 90 o MST tinha certo respaldo com a população, com a mídia, e até com setores da burguesia nacional. A maior prova disso é a novela Rei do Gado, uma novela que passou a imagem do movimento de forma muito simpática para milhões de brasileiros. No entanto, setores industriais e os movimentos latifundistas brasileiros, fazem uma aliança com setores internacionais do capital financeiro e das grandes multinacionais de insumos agrícolas, com isso a imagem do MST passa a se deteriorar tanto na mídia quanto como alternativa de transformação social no campo.

2- Ideologia do movimento e a ''ideologização da luta pela terra'' (CRÍTICA 1)

Sabemos que o MST é um movimento de esquerda marxista, e que para o movimento, uma revolução nesse aspecto deve ser alcançada em todo Brasil. Aqui começa minha primeira crítica. A Reforma Agrária (RA) não possui ideologia, a mesma é uma política de ação social que foi realizada em países capitalistas e comunistas. Por sinal, muito mais bem sucedida nos países capitalistas. É sabido que neutralidade não existe, e que todos temos opiniões que moldam nosso pensamento político, mas a RA não pode ser levada por polarizações ideológicas, uma vez que é uma ferramenta de desenvolvimento nacional essencial para o crescimento de qualquer nação dirigida por qualquer ideologia. O MST peca em esquerdizar a luta pela terra no Brasil, isso afasta a burguesia nacional (pequenos e médios empresários), as instituições eclesiásticas, intelectuais e políticos progressistas, técnicos da área, entre outros. A luta pela RA é uma só, não é uma luta da esquerda ou da direita e sim uma luta pelo Brasil, isso é o que o MST deveria se esforçar para fazer, levar o debate a todos e tentar unir forças com os demais interessados na RA.

3- Modelo de produção dos assentamentos (CRÍTICA 2)

O modelo que o MST defende para seus membros é o modelo de produção agroecológico. Ao meu ver equivocado, eis os motivos:

I- Agroecologia não é uma uma ciência, ou seja, não pode ser testada como modelo de eficiência produtiva. Isso não significa que a verdade só possa ser alcançada através do método científico, significa que a agroecologia carece de desenvolvimento e amadurecimento de suas teses, bem como confrontar as mesmas com a realidade para se ter uma verdade para apresentar, por exemplo: Os solos brasileiros, em sua maioria, são considerados solos velhos, com poucos nutrientes e com problema de acidez, como corrigir acidez dos solos com eficiência e rapidez sem aplicar calcário (calagem)?.Por mais trabalhos que se tenha sobre esse tema, ainda se tem a impressão de muitas lacunas a serem preenchidas.

II- A agroecologia é um movimento que engloba meios sustentáveis de produção agrícola que visa simular as relações naturais. Acredito que esse anseio seja um pouco pretensioso, porquê? A agricultura em si já uma agressão ao meio ambiente, muitas plantas que comemos são exóticas de outros continentes, como vamos simular o habitat natural dessas plantas?  Para realizar lavouras mais práticas é necessária uma diminuição da complexidade dos agroecossistema, ou seja, implantar monoculturas. A monocultura gera uma diminuição dessa complexidade, isso vai acarretar em ataques de pragas e doenças, uma vez que os inimigos naturais dessas desses atores serão inexistentes, por isso a necessidade de aplicar pesticidas. Em pequenas áreas, aumentar a complexidade do agroecossistema com a implantação de lavouras consorciadas com plantas espontâneas endêmicas e sem aplicar insumos químicos simulando o meio ambiente ainda possa ser viável e alcançável, mas se aumenta a área plantada isso passa a não ser mais alcançável, por exemplo: Como iremos ter 20 ha ou mais apenas de feijão ou apenas de tomate simulando o meio ambiente? Como vai ficar a questão da mecanização da colheita?

III- O termo transição agroecológica ainda é muito vago. Os próprios agroecólogos, indiretamente afirmam isso, dizendo que a agroecologia não oferece, por exemplo, uma teoria base em relação ao desenvolvimento rural, sobre metodologias de gestão para os produtores, e sobre métodos para testar o conhecimento técnico. A agricultura necessita de formas mais sustentavas de produção, no entanto, não se pode propor qualquer coisa para tal responsabilidade. É necessário se entender agricultura como questão estratégica de desenvolvimento social e econômico, para isso, são necessárias metas, projetos bem definidos e amadurecidos, simulações com o máximo de concretude e etc. Só assim a mesma será sinônimo de desenvolvimento.

IV-  A exigência exclusiva da agroecologia como modelo produtivo, escanteia o debate para outras coisas que seriam de extrema importância para a RA e para o desenvolvimento rural. Por exemplo: Não se ver no seio do MST um debate e uma luta pela soberania nacional em relação aos fertilizantes minerais. O Brasil tem boas reservas de rochas fosfatadas, potássicas, além de gás natural de petróleo e resíduos pesados de NAFTA, matérias primas essenciais para a fabricação de fertilizantes fosfatados, potássicos e nitrogenados. Toda essa riqueza é concentrada em poucas empresas privadas que fabricam e vendem os fertilizantes a preços exagerados e absurdos aos produtores, isso inviabiliza qualquer agricultura. O estado deveria intervir nisso, construir uma grande empresa estatal de fertilizantes e vende os fertilzantes a preços justos aos produtores. Anexada a essa empresa, também poderia se investir em pesquisas para desenvolver pesticidas de vários tipos (inclusive naturais), o Brasil tem um bioma riquíssimo com inúmeras substâncias químicas para serem testadas e usadas. Da mesma forma se investir em desenvolvimento de uma mecanização agrícola nacional trazendo máquinas a preços acessíveis para os produtores. Por que não se ver esse debate de extrema importância nacional dentro do MST?  Outro aspecto importante é a extensão rural. Com o sucateamento da extensão rural na década de 90, o Brasil ficou carente desse importante serviço. Poucas empresas públicas estaduais (ATES) ainda agonizam, mas até quando? Pouco se viu o MST lutar por uma melhor estruturação da extensão rural no Brasil, o motivo está relacionado a várias ONGs de extensão rural, nos últimos anos, serem ligadas ao MST e desfrutarem de muitos recursos federais nos últimos anos. O resultado não foi uma extensão rural de qualidade.

V- Quero deixar claro, que não sou contra a agroecologia ou outros meios de produção agrícolas mais sustentáveis, apenas sou contra a forma que a mesma vem sendo utilizada. A mesma vem sento usada mais do ponto de vista partidário e ''ideológico'' de que técnico, mais de forma apaixonada de que de acordo com a realidade, mais por intelectuais esquerdistas de gabinete, de que pelos agricultores, mais por sociólogos e teóricos de que por agrônomos e outros técnicos mais práticos. A luta por uma agricultura mais sustentável é justa e necessária, no entanto, os recursos naturais são finitos, mas isso não significa que paremos de usa-los e explora-los, tudo é uma questão de para quem serve as riquezas geradas por essa exploração e uso.

VI- O MST não deveria misturar ideologia e agricultura. Não existe agricultura de esquerda ou de direita, existe modelos distintos de agricultura com diferentes funções na sociedade. A produção em escala pode conviver com a pequena produção, a agricultura sustentável pode se relacionar com o modelo convencional. Agricultor não está nem ai para esquerda ou direita, ele que a melhor forma de produzir suas lavouras, tirar seu sustenta e lucrar com o excedente.

4- Partidarização do movimento. (CRÍTICA 3).

Aos poucos o MST foi perdendo sua combatividade, foi tomado por uma burocracia cada vez mais ligada ao PT. Isso foi, aos poucos, deteriorando o movimento. Os governos Lula e Dilma, de um certo modo, foram mais sensíveis as causas do movimento, bem como teve um melhor diálogo com o mesmo. Contudo, esses governos, não fizeram nada nem próximo de uma reforma agrária, então o que pode explicar tamanha loucura do MST diante o PT? O movimento assistiu de perto o fim do ministério de desenvolvimento agrário (MDA), a queda de Dilma diante de um golpe, uma ofensiva avassaladora diante os pequenos e médios produtores. Que motivos tem o MST de ficarem de braços cruzados diante de tudo isso? Quais planos estão por traz dessa passividade toda? Será porque o próprio Lula nem mesmo quer chamar o impeachment da Dilma de golpe? Essas questões, ao meu ver, mostra a tamanha partidarização do movimento.

5-Centralização do debate (CRÍTICA 4).

O MST possui o pleno domínio do debate da questão da luta pela RA no Brasil. Houve um tempo que vários movimentos atuavam e lutavam de forma ativa pela RA no Brasil, entre os movimentos se tinham: FAO, IICA, sociedades eclesiásticas, CONTAG. Esses movimentos, atualmente, atuam muito pouco no debate. Nos dias de hoje podemos observar ainda movimentos como: MAST (Movimento dos Agricultores Sem Terra, MLST (Movimento de Libertação dos Sem Terra) e o MUST (Movimento Unido dos Sem Terra. Mesmo assim não se ver esses movimentos atuando e debatendo a RA no cenário acadêmico, na mídia e etc. Poucos agricultores sabem que esses movimentos atuam na luta pela RA, ou mesmo que sabem que existem! A polarização do debate é ruim porque centraliza as ações em um único movimento, a RA é uma causa nacional e não apenas do MST. Novas instituições de luta devem ser estimuladas a nascerem, só assim o domínio do debate sai do MST.
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Saul Oliveira

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Re: DEBATE ACERCA DO MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TERRA (MST). Parte 1. Análise crítica.

Mensagem por Jonas Ferreira de Souza em Dom Fev 19, 2017 10:58 pm

No segundo ponto foi crucial a questão que você tocou do MST ter afastado o pequeno e médio empresário. Isso afastou um setor importante da sociedade além de haver criado um inimigo desnecessariamente.

Essa questão da "partidarização do movimento" é um tanto engraçada quando você vê o Stédile rebolando pra explicar porque o PT não fez a RA na TV.

Jonas Ferreira de Souza

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Re: DEBATE ACERCA DO MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TERRA (MST). Parte 1. Análise crítica.

Mensagem por Jonas Ferreira de Souza em Dom Fev 19, 2017 11:07 pm

Acho que pode ficar de exemplo pra Avante é a questão de formação militante do MST. Vejamos, muitos matérias de formação saem da Central do MST (com dicas dos militantes de base e elaborações da direção) e re-distribuído aos núcleos de base e fora as escolas de base que em sua maioria (se bem me lembro) são formas na Escola Nacional Florestan Fernandes. Depois podemos pensar em algo parecido pra fazer um "curso de formação" ou até fazer um tópico sobre isso.

Jonas Ferreira de Souza

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Re: DEBATE ACERCA DO MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TERRA (MST). Parte 1. Análise crítica.

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