O terrorismo "islâmico" é um produto do Ocidente

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O terrorismo "islâmico" é um produto do Ocidente

Mensagem por Jean Carvalho em Qua Mar 01, 2017 6:31 pm



Quando se fala em terrorismo (e radicalismo) islâmico, o fenômeno é considerado como uma parte intrínseca da cultura e da psicologia muçulmana, algo completamente espontâneo e autônomo. Entretanto, as grandes ondas de terror e os principais grupos radicais que vemos na atualidade são produto direto da geopolítica ocidental, especialmente dos membros da União Europeia e dos Estados Unidos.

O exemplo mais evidente pode ser o grande apoio ao Talibã, que deu origem à Al-Qaeda que, por sua vez, foi o embrião do atual Estado Islâmico (Daesh). De 1979 a 1989, o governo estadunidense armou os mujahidin numa guerra direta contra o presidente Hafizullah Amin, ligado à União Soviética e de inclinação marxista. Os mujahidin, contrários ao governo laico de Hafizullah e motivados por uma visão radical do Islã, desejavam implantar no Afeganistão a aplicação rígida da Sharia. Longe de ver um grupo de fanáticos como um perigo, os Estados Unidos armaram o Talibã com o que tinham de melhor para isso, levando à queda do regime de Hafizullah e a instalação de um regime teocrático que lançou o Afeganistão numa guerra intestinal entre grupos radicais e que colocou o país no corredor da produção e consumo de heroína (grande parte exportada para os EUA).

Homens como Ahmad Shah Massoud (principal líder dos guerrilheiros talibãs) não só recebiam apoio militar dos Estados Unidos, como eram idolatrados pela imprensa estadunidense. "Guerreiros da liberdade" era apenas um dos vários epítetos elogiosos recebidos por parte da grande mídia ocidental, que retratava os guerrilheiros como heróis contra os "terrores soviéticos".

Em todo o mundo, mas especialmente no Oriente Médio, os Estados Unidos apoiaram os setores anti-comunistas mais radicais e fervorosamente intransigentes. Os grupos mais fanáticos, como a Irmandade Muçulmana, receberam apoio político dos Estados Unidos contra setores mais moderados, como representantes do socialismo árabe Baath e partidos de Esquerda. Ao combater o "monstro vermelho", os Estados Unidos criaram a "besta fanática".

Não falamos aqui de políticas acidentais ou "erros de cálculo" da política estadunidense: trata-se de um projeto geopolítico consistente, de longo prazo, e que continua sendo levado adiante. Brzezinski, um dos maiores arquitetos da política externa dos EUA, esteve pessoalmente no Paquistão (que mais tarde seria o maior centro de treinamento da Al-Qaeda) e no Afeganistão dando consultoria aos terroristas.

Os estadunidenses, por exemplo, ajudaram a dar o golpe de Estado no Paquistão (um dos vários naquele país, na verdade), derrubando em 1977 o então presidente Zulfiqar Ali Bhutto, democraticamente eleito, e colocando em seu lugar o general Muhammad Zia ul-Haq, que era simpático ao Talibã e deu total apoio ao grupo durante a guerra contra a União Soviética. O intelectual paquistanês Tariq Ali[1] afirma que, a partir dessa época, proliferaram as células terroristas não só em seu país, mas em todo o Oriente Médio.

Para além do eixo Paquistão-Afeganistão, o apoio dos Estados Unidos ao terrorismo estende-se ao próprio território russo. Movsar Barayev[2], líder dos terroristas chechenos, treinado por Ibn al-Khattab[3], que tinha grandes conexões com os sauditas, foi grandemente apoiado pelos EUA. Ele foi o responsável pelo atentado ao teatro Dubrovka[4], em Moscou.

A Arábia Saudita é o maior aliado islâmico dos Estados Unidos no Oriente Médio. Os sauditas são, historicamente, apoiadores do terrorismo, em todos os níveis e sentidos. Osama Bin Laden, saudita e um dos pilares da Al-Qaeda, trabalhou diretamente para a CIA antes do "atentado" do 11 de setembro, contra as torres gêmeas do World Trade Center. Claro que, depois disso, os EUA o elegeram como "inimigo número um", usando-o como pretexto não só para uma nova guerra no Afeganistão (que, mais uma vez, só favoreceu o tráfico de heroína e não diminuiu em nada o terrorismo), mas também para lançar a guerra contra o Iraque.

Acusando Saddam de ser apoiador da Al-Qaeda (uma mentira óbvia, já que o então ditador iraquiano não tinha nenhuma conexão com o grupo, nem com Bin Laden) e de possuir "armas de destruição em massa" (que nunca foram encontradas), os EUA invadiram o país em 2003, depondo Saddam. O cenário subsequente pode ser resumido da seguinte forma: um país com um vácuo de poder que os EUA não conseguiram preencher, uma guerra sangrenta e a proliferação das células terroristas, ambiente propício para o surgimento do Estado Islâmico.

Depois da invasão do Iraque, os EUA favoreceram todo o tipo de grupo "moderado" em detrimento de qualquer projeto nacionalista ou mais inclinado à Esquerda. Há, no Oriente Médio, um forte sentimento de pan-arabismo, um projeto socialista patriótico de promoção da autonomia dos países árabes numa ligação fraterna entre eles. Como isso nunca foi do interesse dos Estados Unidos, qualquer grupo radical que servisse para obliterar esse projeto recebia total apoio ocidental.

Os iraquianos, contrários à presença das tropas estadunidenses no país, chegaram a construir uma plataforma efetiva para preencher a lacuna de poder deixada pela queda de Saddam. Como isso incluía autonomia em relação ao petróleo da região, o governo estadunidense achou melhor entregar o país a extremistas facilmente manipuláveis. É, inclusive, interessante perceber como grande parte do equipamento militar do Estado Islâmico pertencia às tropas dos Estados Unidos, "acidentalmente" roubadas pelos genocidas. E o ISIS teve grande crescimento dentro do próprio Iraque.

Hillary Clinton e McCain possuíam (ou ainda possuem) claras conexões com o Estado Islâmico. Como Reagan havia recebido os mujahidin na Casa Branca, essas duas figuras de peso da política ocidental tiveram contato direto com aqueles simpáticos decapitadores de cristãos (e muçulmanos não alinhados a eles) e violentadores de mulheres e crianças. No caso da Síria, o objetivo seria o de derrubar Bashar e instalar qualquer fantoche em seu lugar - o que, não fosse pela intervenção da Rússia e do Irã em favor da Síria, teria sido concretizado. É até mesmo incrível que a ação militar direta dos Estados Unidos tenha sido diminuída na Síria.

É possível concluir que os Estados Unidos e seus parceiros ocidentais têm, há mais de cinco décadas, fomentado o que há de pior e mais bárbaro no Oriente Médio, insuflando grupos como o Talibã, a Al-Qaeda, a Jabhat Fateh al-Sham (Al-Nusra), o Exército "Sírio" Livre, o Estado Islâmico (Daesh), dentre inúmeros outros. Essa política tem dois objetivos claros: impedir a concretização do pan-arabismo e de todos os projetos nacionalistas de autonomia aos países árabes e a instauração de um caos permanente que justifique as ações militares estadunidenses na região, instalando suas marionetes mais adequadas.

Ao mesmo tempo, pode-se culpabilizar o próprio Islã pelo estado caótico não só no Oriente Médio, mas no mundo inteiro, conclamando a necessidade de "civilizar" aqueles países (o que consiste em destruir nações em desenvolvimento, como era a Líbia e como se tentou fazer com a Síria, mergulhando-as no caos e destruição e fomentando todo o tipo de psicopatas em nome da "liberdade").

O terrorismo "islâmico" é um produto direto da geopolítica ocidental e uma de suas ferramenta mais úteis.




Notas:

[1] Para informações mais detalhadas, conferir a entrevista de Tariq Ali a Gianni Minà, no livro "O Continente Esquecido", página 223.

[2] Movsar Barayev (1979 – 2002) foi um dos mais importantes líderes dos terroristas chechenos e arquiteto do ataque terrorista ao teatro Dubrovka, em Moscou.

[3] Ibn al-Khattab (1969 - 2002) foi um jihadista saudita que lutou no Afeganistão durante os anos 1980, e que, mais tarde, recebeu treinamento nos campos da Al Qaeda no Afeganistão. Na Chechênia, lutou contra os russos nas duas guerras chechenas, e também na Guerra do Daguestão. Ele foi assassinado por agentes da FSB (o atual serviço secreto da Rússia) em março de 2002.

[4] Mais conhecido como "atentado Nord-Ost", foi um ataque ao teatro Dubrovka em 2008, em Moscou, durante um show do grupo "Nord-Ost", resultando na morte de todos  os 40 terroristas e de 133 dos 850 reféns. Os terroristas exigiam a independência da Chechênia como uma República Islâmica separada da Rússia. Nenhum dos soldados do Spetsnaz que participaram da operação morreu. A operação de resgate, apesar de ter sido considerada catastrófica (a maioria dos reféns morreu por conta de um gás usado pelas forças especiais russas para incapacitar os terroristas), teve amplo apoio e aprovação da opinião pública russa.
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Re: O terrorismo "islâmico" é um produto do Ocidente

Mensagem por Neto em Qua Mar 01, 2017 7:04 pm

Basta qualquer nação árabe esboçar risco ao ((((projeto globalista)))) e ao (((mercado))) pra que seu líder sofra inúmeras acusações infundadas (como fizeram com Gaddafi e Saddam) e pressão internacional, posteriormente culminando numa intervenção dos paladinos ianques da liberdade. Resistir, lutar e reconhecer os inimigos é preciso. O islã não é um deles, o liberalismo sim.
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Re: O terrorismo "islâmico" é um produto do Ocidente

Mensagem por Jean Carvalho em Seg Mar 06, 2017 5:51 pm

Neto, é importante notar que, enquanto as verdadeiras estruturas de terror e seus suportes (como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Turquia - isso pra não falar na Europa Ocidental e nos EUA) são devidamente ignorados, grupos como o Hezbollah, que não fazem parte dessa estrutura, são incriminados e mesmo efetivamente demonizados.
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Re: O terrorismo "islâmico" é um produto do Ocidente

Mensagem por Neto em Qui Mar 09, 2017 2:35 am

Jean Carvalho escreveu:Neto, é importante notar que, enquanto as verdadeiras estruturas de terror e seus suportes (como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Turquia - isso pra não falar na Europa Ocidental e nos EUA) são devidamente ignorados, grupos como o Hezbollah, que não fazem parte dessa estrutura, são incriminados e mesmo efetivamente demonizados.
Sim, inclusive já vi neocons chamando o Hezbollah de grupo terrorista (enquanto é, em verdade, um partido político reconhecido).
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